quinta-feira, 26 de novembro de 2009

INTERIOR PERIFÉRICO

Algo que eu acho um pouco melhor.


Depois de alugar, sem cobrar nada, os meus ouvidos a uma prima minha, emprestei-lhe minhas mãos. Bem-aventurados fomos nós naquele momento, que executamos com perfeição as quatro faculdades da linguagem humana. Enquanto ela falava o seu breve relato, numa serenidade empolgada, eu a escutava hipnotizado, ao mesmo tempo em que lia todos os seus gestos. E já pensava, então, como se organizariam as frases, daquela crônica que eu ouvia, numa folha de papel, escrevendo dezenas de linhas imaginárias, uma por uma; antes, é claro, que eu realmente lhe propusesse a escrita de suas palavras e ela aceitasse. Por isso, agora estou efetivamente escrevendo.

Mas, que pena, não realizamos a quinta habilidade lingüística, melhor que todas as outras – que pena! – porque elas, essa habilidade e minha prima, são lindas. Além disso, poderíamos ir mais longe, e eu não costumo ser incestuoso.

Bom, ela não vai parar de me aperrear até eu terminar isso aqui, e como não vou deixá-la ler antes que eu realmente termine, o melhor mesmo é começar logo o referido relato. Aqui vão, porém, palavras minhas, observando-se uma transcrição perfeita apenas nas idéias; ela exigiu que suas palavras não passassem além dos meus ouvidos. Mas como destes minhas mãos são uma extensão...

Moramos na periferia da capital e há mais de dois anos que ela vive aqui em casa com a gente - comigo e com meus pais. Vinda de uma pequena cidade do interior do Estado, chegou entre os prédios acanhada, e não foi com muita facilidade que seus pulmões se acostumaram ao novo e bem mais poluído ar. Seus olhos, se não tiveram chance de se assustar com a nova paisagem, devido à rápida passagem da rodoviária para a casa, foram empáticos com os ouvidos, que não puderam fugir do enorme barulho. O sofrimento destes se mostrou na expressão daqueles. Foi até engraçado vê-la confusa, pondo, às vezes, as mãos sobre as orelhas e espremendo os olhos, como se esperasse, a cada vez, um barulho ainda maior que o anterior.

Como é natural acontecer, porém, todo o corpo dela acabou por se adaptar ao ambiente. E qual o corpo, os hábitos também adquiriram outros contornos, de acordo com a nova superfície de vivência. Foi se referindo aos próprios costumes – a apenas um, na verdade – que numa manhã dessas ela me falou, surpresa, do que havia acontecido no começo daquela mesma manhã.

Acostumada a “acordar junta com os pintos” lá na cidade onde nasceu, com o tempo ela começou a se espreguiçar cada vez mais tarde, o que é, no mínimo, de estranhar. Ela me contou, enfim, que naquela manhã de domingo tinha acordado mais cedo que de costume, desfazendo um hábito atual e recuperando um mais antigo. Estando de pé quando ainda roncávamos, ela me disse que naquele momento também ouviu um silêncio que há muito não escutava. Não quis acordar ninguém e, não conseguindo mais deitar-se, saiu para frente da casa. Sentiu um “arrepio na espinha, um frio gostoso” assim que viu a rua vazia, sem uma alma que pudesse contrariá-la no desejo de ficar um minuto sozinha; só um vira-lata passava naquela hora, o que, na verdade, a felicitou ainda mais.

Todo esse ar de calmaria, de vento soprando nas saias, de um bocejar demorado, de cachorro velho perambulando, tudo isso a fez lembrar a outra casa em frente à outra rua. Ela me falou, entusiasmada, o quanto tinha achado parecido, naquele momento, esse bairro onde vivemos e a sua cidade natal.

Foi quando, na mesma hora, cunhei a expressão que, depois, tornou-se título destes parágrafos. Sempre tive gosto por aproximar palavras que teimam em se manter distantes, e que só o fazem porque não sabem que são todas irmãs. A mãe eu não sei quem seja, mas como bom padrinho devo auxiliar na conciliação das que não se dão.

Ela, de início, não entendeu o que eu quis dizer, mas depois que lhe expliquei, não parou de rir, e mesmo de dar gargalhadas. Não sei se foi porque achou a expressão inteligente e sutil ou se por ver o quanto era ridícula. Eu, no final, acabei sem saber; acompanhei-a nos risos e assim continuamos o dia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

HOJE

Bem, pretendendo retomar um compromisso com o "Blogs de Quinta", vou postar aqui algumas coisas meio vellhas - e que eu não acho tão boas. Mas, enfim, a consciência do compromisso é maior, então, até que eu escreva algo um pouco melhor, vou ficar postando essas ingenuidades.

Hoje estou à toa
Hoje o tempo voa
Hoje é Dezembro
Hoje eu me lembro
De que hoje é um dia
De que hoje em dia
O hoje já é passado.
É um hoje acelerado
Que passa rapidamente
Na velocidade da mente.
Tudo cresce e decresce
E o mundo padece.
Eu sem ocupação
Com a caneta na mão
Pensando enganado que hoje é
Um dia como outro qualquer

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UMA PROVOCAÇÃO

Pensando um pouco – e somente um pouco – sobre nossa atual condição de blogueiros mais voltados à escrita literária, cheguei a alguns pontos. Esses pontos não são de forma alguma conclusivos porque, para isso, os pensamentos teriam de ser um tanto mais demorados e profundos.

Considerando, também, a nossa posição opinativa – pelo menos daqueles com quem conversei – a respeito do veículo daquela mesma escrita, a artística, pude, então, ver claramente as duas questões, as quais, na verdade, se reduzem a apenas uma.

Destas duas opções, em uma nos encaixaríamos: ou seríamos um grupo de hipócritas/fingidores ou seríamos totalmente verdadeiros, entrando, porém, nuam grande contradição.

Explico-me

Se concordarmos em dizer que o livro é o melhor meio e o mais favorável à leitura de textos literários, e que a percepção destes só se dá de forma completa e profunda nas páginas de papel, estaríamos fingindo descaradamente ao trocar comentários os mais apaixonados possíveis, já que a tela de um computador é fria o suficiente para não permitir uma aproximação calorosa, necessária à literatura.

Por outro lado, seríamos totalmente honestos e sinceros com nós mesmos e com os amigos blogueiros; os profundos comentários seriam um puro reflexo da nem um pouco rasa percepção dos textos. Estaríamos, entretanto, nos contradizendo. Seríamos como que líderes ou precursores de uma revolução contra a qual nos voltamos. Revolução essa que teria como auge a popularização dos e-readers ou leitores de e-books, os livros eletrônicos.

Ou ainda, e por fim, uma terceira opção que me veio agora e que anula as duas anteriores: não escrevemos literatura. Nossos texto, portanto, são perfeitamente adaptáveis ao ambiente virtual.

Mas essa possibilidade eu descarto completamente. Escrevemos, sim, literatura. Nossa preocupação maior é o despertar da sensibilidade, é a leitura prazerosa, ou não, é a leitura angustiante. O que nos faz escrever, enfim, é saber que depois aquilo vai ser lido gostosamente.
Além do mais, somos nós que temos que nos adaptar, ao novo ambiente cultural que já está surgindo, o que é, naturalmente, bem mais difícil do que um ajuste biológico.

A questão única, aliás, de que falei mais atrás e em que tudo isso se converte é o quanto seremos resistentes a essa evolução da qual fazemos parte. Ainda que defendamos com unhas e dente nosso habitat - o livro - não podemos ser bairristas irracionais e nem, é claro, podemos nos entregar de bandeja a essa situação de mudança que tanto nos ofende. Afinal, somos seres humanos, temos o poder de agir sobre a natureza, sobre suas mudanças, acelerando-as, fazendo-as ir mais lentamente e até mesmo impedindo-as.

E é justamente por sermos seres humanos que não devemos nos preocupar tanto assim com o grau de frieza de um veículo de arte porque, além de ser veículo de arte, enquanto esteivermos aqui, tudo - embora fatos provem o contrário - mas acredito que enquanto existirmos, tudo será suscetível de sensibilização.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O CARRO, A MOTO E O LIVRO

Grandes amigos na infância e na adolescência, os três homens, já adultos, há muito tempo não se viam. Depois de se encontrarem pela Internet, num site de relacionamentos, decidiram fazê-lo pessoalmente – é, às vezes a tecnologia causa algumas redundâncias. Combinaram lanchar em um café no centro da cidade.

O primeiro a chegar desceu de um ônibus, andou um pouco e no fim de uns cinco minuto não viu nenhum rosto conhecido. Sentou-se a uma mesa e, enquanto esperava, ficou rascunhando uma folha de papel já rabiscada que tirou de entre as páginas de um livro. Perguntado se queria alguma coisa para comer ou beber, ia dizer que ainda não, que esperava uns amigos, quando estes o interromperam súbita e simultaneamente, quase com um grito:

- A gente vai querer três "cappuccinos"!

O atendente, com uma caderneta na mão, deu um pequeno pulo com o susto que tomou. O que estava sentado pinoteou na cadeira e virou-se com o coração aos pulos: "Mas que...?" - engoliu o resto da pergunta que fez em pensamento. Mas não deixou passar o erro que ouviu dos amigos; depois de se cumprimentarem e sentarem-se todos, falou ao garçom, baixinho:

- É, pode trazer três cappuccini.

- E traz também - determinou um dos outros dois - três pedaços de... Não, não, eu quero torta. É, três fatias de torta. Qualquer uma tá bom.

Decidiram, também, quem começaria a falar. Tendo um amigo de cada lado, o homem que chegara adiantado levou novo susto quando recebeu dos dois, quase ao mesmo tempo, aquela pancadinha camarada perto do ombro, comum no cumprimento masculino. O que o surpreendeu mesmo foi a batida não tão camarada e, além disso, os dois, no ato do gesto, atropelaram-se na fala pedindo ao outro que falasse:

- Diz aí, meu chapa!

Isso soou como um eco desarmonioso e super desagradável aos ouvidos do pobre homem, os quais se sentiram imprensados, esmagados verbalmente.

Pareceu-lhe, também, ao homem que já tinha guardado o papel dentro do livro, que não era a primeira vez, depois de muito tempo, que aqueles dois se encontravam. Tinham uma certa semelhança nos gestos e na fala, e mesmo uma sincronia, que impressionava.

E se queriam que ele dissesse, mais que isso, também queriam dizer. Não ouviram uma resposta do interlocutor em comum e já se puseram a falar de si. Primeiro o da esquerda, que, apontando para o lado da rua, queria mostrar algo de que se orgulhava:

- Tão vendo ali - dirigindo-se aos outros dois - tão vendo aquela máquina? Aquela potência? - dizia isso de um moto alta e vermelha estacionada em frente ao café. E continuou: - Pois é, comprei ela...

Mas o outro, da direita, meteu-se no meio e foi falando, exultante:

- Isso é porque tu não sentiu a força da minha Hilux 2010! Além de tudo, é linda - e estendia o braço em direção a um carro com carroceria e prateado, também parado em frente ao café.

Houve uma rápida discussão (no bom sentido) entre os dois a respeito de seus respectivos veículos, durante a qual chegaram os pedidos. Um dos dois, com a boca meio cheia de torta, parou a discussão inacabada e voltou-se repentinamente para o outro que, até aquele instante, só havia pensado o quão estranho estavam aqueles dois; não estava reconhecendo-os. Desde a última vez que tinham se visto, no último ano do Ensino Médio, aqueles dois haviam mudado muito. Dessa vez, porém, falou, quando foi requisitado:

- E tu, não fala nada. Como é que está a vida? Tem esposa? Tem filhos? Tu não coloca nada lá na Internet pra gente ver, macho!

De fato, o homem não punha quase nada na sua página individual - pouquíssimas fotos, nenhum vídeo e algumas frases um tanto subjetivas e herméticas. Por outro lado, soube de quase toda a vida atual dos antigos amigos só clicando aqui e ali.

Pensando em brincar um pouco com os dois, engoliu o pedaço de torta e falou:

- É que eu sou um pouco reservado, vocês sabem. Quanto à esposa, casei uma vez. Passamos um bom tempo juntos, mas nos separamos; foi quando eu estava com ela que tive o primeiro filho. Depois quis ter o segundo e ela já não me apoiava mais. Então, vocês sabem...

- É, eu sei. Mulher é foda mesmo. Quando empaca numa coisa, não tira mais da cabeça.

- E tu tá cuidando sozinho desse filho? - perguntou o outro. Tá trabalhando em quê?

- Pois é. Como eu queria, tive ainda outro filho. Trabalho mesmo foi fazê-los...

- Que nada, cara! - atalhou o outro - O mais fácil é na hora de fazer. Depois é que você tem que aguentar o tranco, a barra pesada.

- Mas pra mim o difícil mesmo foi fazer. Suei pra caramba...

- Quem é que não sua nessas horas? - disse o mesmo, gracejando, que interrompia já pela terceira vez.

- Suei muito. E a gestação deles não demorou só nove meses. Pra nascer, pra vir realmente ao mundo, o primeiro custou uns dois anos.

- Como assim? Tu fala e parece que foi tu que engravidou!

- E esse dois anos! Que história é essa!? - perguntou o mais afobado.

Estava se divertindo com a confusão dos dois. Sem responder a nenhuma pergunta ainda, continuou:

- O meu trabalho eu já fiz. Agora é só esperar o retorno financeiro, se tiver, desses pestinhas que me ocuparam tanto tempo. Ganho dinheiro às custas da minha prole.

- O quê!? - ecoaram novamente os dois.

Um prosseguiu no espanto:

- Tu bota os teus filhos pra trabalharem pra ti? - E não hesitou em dizer: - Mas que porra é essa!? Que tipo de pai é tu?

Parou, enfim, com a brincadeira, com a irreverência e percebeu que aqueles dois nunca ouviram falar no seu nome e, se não fosse aquele dia, jamais saberiam o que ele fazia. Apanhou o livro que estava sobre as suas pernas e o mostrou aos amigos:

- Este é meu filho mais velho.

Surpreenderam-se os dois; ambos tiveram um rosto indescritível. Ficaram um tempo calados, olharam-se e, finalmente, e de novo, agora sem muita surpresa por parte do outro, parabenizaram o amigo no mesmo instante; um "parabéns" bem insosso e irônico:

- Ah, parabéns. Eu não sabia que escrevia, que tu era escritor.

- Pois é.

E entre gargalhadas por se perceberem vítimas de uma pegadinha, um deles perguntou ao outro, que também tremia de rir por ser o armador da brincadeira:

- Eu vou querer esse aí. Quanto é que tu quer nele? Dez reais tá bom? - e foi tirando a carteira.

"Que miserável" - pensou o autor do livro - "Dez reais!..." Mas falou:

- Não, não! Esse aqui eu trouxe pra dá de presente mesmo.

Tirou o papel de dentro do livro e disse

- Toma, pega. Eu não quero nada, esse é presente. Depois te dou um também - dirigindo-se ao ou outro.

Terminaram o lanche e, na despedida, ficaram de se ver de novo, queriam reestabelecer a amizade.

O primeiro a chegar também foi o último a sair. Viu a moto e o carro dispararem rua a fora e ficou esperando o ônibus. Chegou ao apartamento, pegou a folha de papel do bolso, sentou-se à escrivaninha e pôs-se a escrever para terminar o que começara.

Terminei de escrever, está pronto, mas não mostro este conto àqueles dois, nem a ninguém, nem se virarem os meus leitores mais assíduos e fanáticos. E, pensando bem, seria uma ótima estratégia para as minhas publicaçoes póstumas: um texto ainda não lido. Mas deixa pra lá, porque certamente não seria este.