sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O CARRO, A MOTO E O LIVRO

Grandes amigos na infância e na adolescência, os três homens, já adultos, há muito tempo não se viam. Depois de se encontrarem pela Internet, num site de relacionamentos, decidiram fazê-lo pessoalmente – é, às vezes a tecnologia causa algumas redundâncias. Combinaram lanchar em um café no centro da cidade.

O primeiro a chegar desceu de um ônibus, andou um pouco e no fim de uns cinco minuto não viu nenhum rosto conhecido. Sentou-se a uma mesa e, enquanto esperava, ficou rascunhando uma folha de papel já rabiscada que tirou de entre as páginas de um livro. Perguntado se queria alguma coisa para comer ou beber, ia dizer que ainda não, que esperava uns amigos, quando estes o interromperam súbita e simultaneamente, quase com um grito:

- A gente vai querer três "cappuccinos"!

O atendente, com uma caderneta na mão, deu um pequeno pulo com o susto que tomou. O que estava sentado pinoteou na cadeira e virou-se com o coração aos pulos: "Mas que...?" - engoliu o resto da pergunta que fez em pensamento. Mas não deixou passar o erro que ouviu dos amigos; depois de se cumprimentarem e sentarem-se todos, falou ao garçom, baixinho:

- É, pode trazer três cappuccini.

- E traz também - determinou um dos outros dois - três pedaços de... Não, não, eu quero torta. É, três fatias de torta. Qualquer uma tá bom.

Decidiram, também, quem começaria a falar. Tendo um amigo de cada lado, o homem que chegara adiantado levou novo susto quando recebeu dos dois, quase ao mesmo tempo, aquela pancadinha camarada perto do ombro, comum no cumprimento masculino. O que o surpreendeu mesmo foi a batida não tão camarada e, além disso, os dois, no ato do gesto, atropelaram-se na fala pedindo ao outro que falasse:

- Diz aí, meu chapa!

Isso soou como um eco desarmonioso e super desagradável aos ouvidos do pobre homem, os quais se sentiram imprensados, esmagados verbalmente.

Pareceu-lhe, também, ao homem que já tinha guardado o papel dentro do livro, que não era a primeira vez, depois de muito tempo, que aqueles dois se encontravam. Tinham uma certa semelhança nos gestos e na fala, e mesmo uma sincronia, que impressionava.

E se queriam que ele dissesse, mais que isso, também queriam dizer. Não ouviram uma resposta do interlocutor em comum e já se puseram a falar de si. Primeiro o da esquerda, que, apontando para o lado da rua, queria mostrar algo de que se orgulhava:

- Tão vendo ali - dirigindo-se aos outros dois - tão vendo aquela máquina? Aquela potência? - dizia isso de um moto alta e vermelha estacionada em frente ao café. E continuou: - Pois é, comprei ela...

Mas o outro, da direita, meteu-se no meio e foi falando, exultante:

- Isso é porque tu não sentiu a força da minha Hilux 2010! Além de tudo, é linda - e estendia o braço em direção a um carro com carroceria e prateado, também parado em frente ao café.

Houve uma rápida discussão (no bom sentido) entre os dois a respeito de seus respectivos veículos, durante a qual chegaram os pedidos. Um dos dois, com a boca meio cheia de torta, parou a discussão inacabada e voltou-se repentinamente para o outro que, até aquele instante, só havia pensado o quão estranho estavam aqueles dois; não estava reconhecendo-os. Desde a última vez que tinham se visto, no último ano do Ensino Médio, aqueles dois haviam mudado muito. Dessa vez, porém, falou, quando foi requisitado:

- E tu, não fala nada. Como é que está a vida? Tem esposa? Tem filhos? Tu não coloca nada lá na Internet pra gente ver, macho!

De fato, o homem não punha quase nada na sua página individual - pouquíssimas fotos, nenhum vídeo e algumas frases um tanto subjetivas e herméticas. Por outro lado, soube de quase toda a vida atual dos antigos amigos só clicando aqui e ali.

Pensando em brincar um pouco com os dois, engoliu o pedaço de torta e falou:

- É que eu sou um pouco reservado, vocês sabem. Quanto à esposa, casei uma vez. Passamos um bom tempo juntos, mas nos separamos; foi quando eu estava com ela que tive o primeiro filho. Depois quis ter o segundo e ela já não me apoiava mais. Então, vocês sabem...

- É, eu sei. Mulher é foda mesmo. Quando empaca numa coisa, não tira mais da cabeça.

- E tu tá cuidando sozinho desse filho? - perguntou o outro. Tá trabalhando em quê?

- Pois é. Como eu queria, tive ainda outro filho. Trabalho mesmo foi fazê-los...

- Que nada, cara! - atalhou o outro - O mais fácil é na hora de fazer. Depois é que você tem que aguentar o tranco, a barra pesada.

- Mas pra mim o difícil mesmo foi fazer. Suei pra caramba...

- Quem é que não sua nessas horas? - disse o mesmo, gracejando, que interrompia já pela terceira vez.

- Suei muito. E a gestação deles não demorou só nove meses. Pra nascer, pra vir realmente ao mundo, o primeiro custou uns dois anos.

- Como assim? Tu fala e parece que foi tu que engravidou!

- E esse dois anos! Que história é essa!? - perguntou o mais afobado.

Estava se divertindo com a confusão dos dois. Sem responder a nenhuma pergunta ainda, continuou:

- O meu trabalho eu já fiz. Agora é só esperar o retorno financeiro, se tiver, desses pestinhas que me ocuparam tanto tempo. Ganho dinheiro às custas da minha prole.

- O quê!? - ecoaram novamente os dois.

Um prosseguiu no espanto:

- Tu bota os teus filhos pra trabalharem pra ti? - E não hesitou em dizer: - Mas que porra é essa!? Que tipo de pai é tu?

Parou, enfim, com a brincadeira, com a irreverência e percebeu que aqueles dois nunca ouviram falar no seu nome e, se não fosse aquele dia, jamais saberiam o que ele fazia. Apanhou o livro que estava sobre as suas pernas e o mostrou aos amigos:

- Este é meu filho mais velho.

Surpreenderam-se os dois; ambos tiveram um rosto indescritível. Ficaram um tempo calados, olharam-se e, finalmente, e de novo, agora sem muita surpresa por parte do outro, parabenizaram o amigo no mesmo instante; um "parabéns" bem insosso e irônico:

- Ah, parabéns. Eu não sabia que escrevia, que tu era escritor.

- Pois é.

E entre gargalhadas por se perceberem vítimas de uma pegadinha, um deles perguntou ao outro, que também tremia de rir por ser o armador da brincadeira:

- Eu vou querer esse aí. Quanto é que tu quer nele? Dez reais tá bom? - e foi tirando a carteira.

"Que miserável" - pensou o autor do livro - "Dez reais!..." Mas falou:

- Não, não! Esse aqui eu trouxe pra dá de presente mesmo.

Tirou o papel de dentro do livro e disse

- Toma, pega. Eu não quero nada, esse é presente. Depois te dou um também - dirigindo-se ao ou outro.

Terminaram o lanche e, na despedida, ficaram de se ver de novo, queriam reestabelecer a amizade.

O primeiro a chegar também foi o último a sair. Viu a moto e o carro dispararem rua a fora e ficou esperando o ônibus. Chegou ao apartamento, pegou a folha de papel do bolso, sentou-se à escrivaninha e pôs-se a escrever para terminar o que começara.

Terminei de escrever, está pronto, mas não mostro este conto àqueles dois, nem a ninguém, nem se virarem os meus leitores mais assíduos e fanáticos. E, pensando bem, seria uma ótima estratégia para as minhas publicaçoes póstumas: um texto ainda não lido. Mas deixa pra lá, porque certamente não seria este.






























quinta-feira, 17 de setembro de 2009

HOMEM SEM BRAÇOS

O homem é mais amplo que o céu
O homem é mais vasto que o mar
Mas o homem se perde no céu
O homem se afoga no mar

O homem só vê o grandioso
O homem é tão pequeno!

O homem é maior que tudo
Migalhas se passam de mundos
O homem tem grande visão
Mas os braços são curtíssimos

São cotocos, são nada
Não abarcam outra infinidade

O abraço de infinitos
Portanto é impossível
Só há visão, vontade
As pernas e os braços... puf!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

D. APARECIDA

Hoje, vendo-me entre pessoas tão importantes, que decidem o destino de tantas outras todos os anos, lembro-me de minha saudosa mãe. Imagino que ela ficaria feliz ao ver seu nome impresso, não em um papel qualquer, mas em um papel publicado. Antes de tudo, então, o nome: Maria Aparecida Nunes ou “D. Aparecida”. Mas ela ainda não estaria satisfeita. Um nome não se sustenta por si só, é preciso que o repitam. E para isso é necessário um forte significado, algo que o dê peso e faça com que as pessoas se lembrem dele. Assim como os juristas doutrinários, cujas citações são indispensáveis em qualquer página do direito, ou, em outra área, um Machado de Assis, e ainda um tal de não sei o quê Passos, que surgiu agora e de quem falam tanto.

O fato que vou contar é, no mínimo, pitoresco. Quanto à significação, vejamos.

Naquele ano, eu estava concluindo o curso de Direito. Morava com minha mãe e, até pouco tempo dali, éramos mantidos apenas com a renda vinda de um comércio, cuja administração era responsabilidade exclusiva dela. No entanto, eu arranjara um emprego – auxiliava as atividades em um escritório de advocacia. Hoje, auxiliam-me também. Pude contribuir com as despesas da casa e, excetuando outros gastos, tinha economizado meus primeiros vencimentos a fim de comprar uma casa para mim.

E comprei.

Na mudança, quando fui despedir-me de mamãe, deu-se o fato.

Àquela época, meus vinte e poucos anos não me permitiam um extraordinário senso de organização. Meu quarto não era dos mais ordenados. Cadeira como cabide para as camisas, camisas sobre livros, livros abertos sobre a cama e a cama servindo de resumo para toda aquela balbúrdia.

Poucos meses antes do dia que deixaria a casa materna, comecei a perceber que os livros, e somente os livros, se isentavam da bagunça. Todos os dias, ao chegar do trabalho, eu não os via onde tinha deixado. Mudavam-se para a estante, enfileirados na prateleira, em uma harmonia horrivelmente contrastante com todo o resto do quarto. Estranhei à primeira vista, obviamente, os livros no lugar deles; envergonhei-me, até, por perceber o quanto eu era displicente. Mas, sobretudo, gostei de ter minhas coisas, ou parte delas, arrumadas. De resto, continuei economizando minhas ralas receitas para aplicá-las na compra da casa.

Casa comprada, alguns móveis arranjados, coisas juntadas, fui dar tchau a D. Aparecida, que estava, claro, cuidando do comércio. Assim que entrei, estanquei. Tomei um pequeno susto e fiquei observando. Mamãe não me viu – atendia umas pessoas no balcão, um pouco a frente de onde eu estava – mas eu a vi. E ouvi.

Ela quase gritava, falando alto com os do outro lado do balcão. Eram dois homens e uma mulher, que contestavam o que mamãe dizia, tentando superá-la no tom de voz. Daquele alarido, contudo, pude distinguir bem o que falaram.

- É isso mesmo! um real. E eu não quero saber se é absurdo, meu senhor! – falou mamãe, levantando a voz e dirigindo-se ao mais insistente no retruque que, tentando se acalmar, persistiu:

- Vamo, mulher, me dá logo esse cigarro, que eu já to ficando nervoso – pondo uma moeda sobre o balcão.

- Tá faltando 75 centavos.

- Ora! Mas que droga é essa?!

Pude enfim entender o que estava acontecendo e o que havia acontecido, quando mamãe respondeu:

- Ora digo eu! E eu não quero ouvir palavrão aqui, não! falou irritada. E continuou, séria e, pude perceber pelo queixo elevado, com uma certa altivez – O senhor nunca ouviu falar no Princípio da Seletividade? Pois é. Se não sabe, ele fala que todo produto supérfluo tem que ter uma maior alíquota, que esses produtos devem ser altamente taxados.

O quê?? Foi o que pensei. O fumante irritado não deve ter pensado muito diferente. Porém, enquanto eu, muito surpreso, sabia do que mamãe falava, embora sem saber por quê, o homem do outro lado do balcão, já sozinho, franziu a testa de um jeito!...

- A senhora tá tentando me enrolar, é? falou, levantando a voz e os braços. Sacudindo as mãos, como se espantasse um cachorro sarnento. – Ah! esbravejou, e saiu resmungando. Mas ouviu, ainda, algumas palavras da estranha D. Aparecida. Denunciando a fumaça do cigarro, defendendo o meio ambiente e dizendo ser uma das poucas pessoas a “fazer a diferença nesse mundo indiferente”, ficou falando sozinha, numa espécie de protesto repleto do jargão jurídico, o qual eu bem entendia, mas do qual eu não entendia o contexto.

Aproximei-me e a fiz parar de falar. Muito curioso e assustado, perguntei o que havia sido aquilo. Como resposta, ou sem ligar para a minha pergunta, continuou entusiasmada com o mesmo discurso. Complementou, ainda, dizendo que não poderíamos só esperar pela ação dos governantes. Ela enfim parou ao perceber o meu olhar de estranhamento e medo. E me respondeu, com raiva, que só era velha, mas não estava morta e que, além do mais, estava ajudando tanto os fumantes a se livrarem de vício tão danoso quanto o governo – pelo qual não esperava – a cumprir um princípio tão importante. Sentia-se, portanto, muito feliz com isso, mesmo não vendendo um cigarro, pois era esse o objetivo.

Atônito diante daquela eloqüência, preferi não contestar uma palavra e apenas me despedi, dando-lhe um forte abraço e um grande beijo no rosto. Deixei um livro no quarto dela; talvez encontrasse, nas suas leituras, o capítulo das competências tributárias e visse que as alíquotas do IPI, imposto sobre o qual ela agiu, são fixadas somente pelo Poder Executivo. Mas creio que não encontrou, porque até o final da vida permaneceu com aquele entusiasmo surgido de repente e uma filantropia eufórica de jovem que reza gritando mas não sabe da missa a metade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O MELHOR MESMO É NÃO SE APAIXONAR

O melhor mesmo é não se apaixonar. Foi o que me disse um amigo, com o qual perdi contato há um tempo, quando lhe contei a história na qual ele tinha sido um dos personagens.


Mas como um personagem pode não saber da história da qual participa? É curioso mesmo. E engraçado; ri muito do que se passou. Corrigindo-me, não foi exatamente hilário; ri mesmo foi do ridículo de tudo aquilo. Mas foi o que aconteceu.


Durante cerca de um mês, assisti a um espetáculo que se apresentava a mim diariamente. Tendo por cenário um aconchegante e distraído escritório de Recursos Humanos, os três protagonistas se envolvem - ou não - numa irrisória e lamentável peça que a vida, docemente, prega pra eles.


Com o desfecho em minhas mãos, e aproveitando a folga do domingo, falei a Sílvio tudo o que ele não havia conseguido ver. Pela manhã, o chamei ao meu apartamento. Almoçamos e depois contei.


- Faça o favor de pular a minha parte, falou ele, chateado, antes de eu começar. Não preciso e nem quero saber de mim mesmo. Aliás, não sei o que eu estou fazendo aqui. Isso tudo já me aborreceu demais.


-Calma, calma. O que vou te falar não é nada além do que realmente aconteceu. E, ora, por que eu não falaria de ti, meu grande amigo Sílvio? Eu gargalhava por dentro, assim como hoje eu faço, só que abertamente, ao lembrar desse episódio que descrevo agora; por dentro, porém, apenas um risinho, que não dava para conter.


- Por que eu te deixaria de lado? Não, nunca faria isso. Além do mais, foi a melhor parte da trama; ou do drama. Ou seria comédia?


- Não venha me irritar mais, seu...


- Do que mais me lembro é da sua cara, quando tudo começou. E, pelo que me vem à mente, não era tão carrancuda quanto essa que você tem aí agora. Era a de um bobo, um lunático, cujos pensamentos só eu, como maior amigo, poderia tentar adivinhar e deduzir do que tratavam. Foi o que fiz. Não precisou muita observação pra concluir, com uma certa raiva, que você estava caidinho por Helena. Um bobo mesmo!


E assim eu contava, como que sem pausa na fala. O máximo que Sílvio fazia era erguer o dedo, querendo se pronunciar. Mas eu o atropelava e prosseguia com a minha elaborada palestra. Para dar efeito à enunciação, rodeava-o lentamente e parava, ele sentado à mesa me escutando. Fui nisso até o final, quando me sentei.


Tomado por uma raiva, ainda que contida, e por um divertimento que tudo aquilo me causava, continuei:


- Isso mesmo, um bobo! Um abestalhado! E não te chamo assim à toa. Saiba que naquele tempo, fiquei sabendo que Helena estava de olho em outro, o Mário. Dessa vez, Sílvio levantou o dedo e abriu a boca, mas não deixei sair nada. Se acha estranho ou se se aborrece por não ter te contado na época, deve imaginar agora também quanto rancor guardei por não saber que o meu amigão não me disse sequer uma palavra sobre o que lhe ocupava tanto os pensamentos. Preferi, então, só te observar, pra ver onde tudo terminaria. E depois que ouvi, entre a recepção de um e outro candidato a emprego, depois que escutei Helena cochichar com a marta e dizer que estava "a fim daquele gatinho, o Mário" ah que nojo! decidi prestar mais atenção à Helena. Quando percebi, já tinha sob minha vista três seres que, sem saberem, ora me irritavam, ora me faziam rir. Por tabela, me voltei também a Mário.

- Mas eu...

- Não se preocupe, falei, apertando os ombros dele, pois eu estava naquele momento atrás da cadeira. Você foi que mais me divertiu. A sua cegueira, a sua maneira de se enganar foi singular. Estava ridiculamente apaixonado e não conseguia ver nada a um palmo à frente do nariz. Coitadinho! Odeio qualquer tipo de torpor. Mas o seu caso era diferente, não era? Era. Você achava inconcebível a idéia de que Helena pudesse gostar de outra pessoa. Lembra? Você mesmo me disse isso quando tudo acabou. Ou melhor, nem começou. Além de tudo, ainda é medroso; não teve coragem de se aproximar dela. O que te torna um homem muito contraditório: apaixonado e medroso. Pelo que vejo na TV e nos livros, geralmente não é assim.

Nessa hora, vi que Sílvio mudava de raivoso e nervoso pra tristonho. Se ele não disse nada, foi antes pelo que mestava sentindo, porque parei de falar assim que o percebi daquele jeito. Eu, porém, tinha de terminar o que havia começado. Não podia abandonar a direção com o carro andando; tentei ir por um caminho menos desconfortável pra Sílvio. Eu sabia que ele não sentia mais tanto amor assim por Helena, então enveredei por ela.

- Helena não agiu muito diferente. Afinal, também estava apaixonada.

Sílvio realmente me assustou quando, com ódio na voz, gritou – Uma vagabunda!

- É, continuei. Uma vagabunda que não enxergou os teus sentimentos, que só tinha olhos para outro. Toda vez que a via pelos corredores do escritório, eu sentia raiva dupla daquela cachorra. Falava palavras assim a fim de despertar em Sílvio algo que substituísse a tristeza, mas não surtiu o efeito esperado. Talvez estivesse arrependido, porque de vez em quando ficava cabisbaixo. Insisti. Isso não pode: além de desperdiçar tempo pensando num homem que não estava nem aí pra ela. Isso mesmo, Mário era o único que poderia sair a salvo dessa história toda. Já, já eu chego nele. Além disso, a vagabunda ainda fez, e está fazendo , o meu amigão aqui sofrer. Ela, pelo menos, se aproximou do Mário e, como você já sabe... Assim que Marta ficou sabendo do sentimento da amiga, arregaçou as mangas e tratou logo de aproximar os dois. Pois é, existem na Terra esses seres chamados “cupidos”, que gastam o tempo a concretizar a irracionalidade e a pieguice das paixonites agudas. Como eu soube você pergunta? Às vezes, apenas a observação não basta. Tive de ir a campo e, discretamente, tirar essa informação de Marta. O que não foi lá tão difícil... Não é à toa que ela está na recepção.

- Enfim, e sentei-me de frente pra ele, que já estava perceptivelmente esmorecido; o olhar distante, o corpo relaxado. Ver isso, em parte, foi bom; era quase certo ter conseguido meu objetivo. Mas pra arrematar com sucesso, as últimas frases foram essenciais.

- Enfim, o Mário, que era neutro nisso tudo e podia sair sem seqüelas, foi atacado em cheio pela embriaguez quando cedeu aos galanteios da famosa bêbada.

E um enorme sorriso abriu-se dentro de mim quando, ainda sem me olhar diretamente, Sílvio disse:

- O melhor mesmo é não se apaixonar.