Grandes amigos na infância e na adolescência, os três homens, já adultos, há muito tempo não se viam. Depois de se encontrarem pela Internet, num site de relacionamentos, decidiram fazê-lo pessoalmente – é, às vezes a tecnologia causa algumas redundâncias. Combinaram lanchar em um café no centro da cidade.
O primeiro a chegar desceu de um ônibus, andou um pouco e no fim de uns cinco minuto não viu nenhum rosto conhecido. Sentou-se a uma mesa e, enquanto esperava, ficou rascunhando uma folha de papel já rabiscada que tirou de entre as páginas de um livro. Perguntado se queria alguma coisa para comer ou beber, ia dizer que ainda não, que esperava uns amigos, quando estes o interromperam súbita e simultaneamente, quase com um grito:
- A gente vai querer três "cappuccinos"!
O atendente, com uma caderneta na mão, deu um pequeno pulo com o susto que tomou. O que estava sentado pinoteou na cadeira e virou-se com o coração aos pulos: "Mas que...?" - engoliu o resto da pergunta que fez em pensamento. Mas não deixou passar o erro que ouviu dos amigos; depois de se cumprimentarem e sentarem-se todos, falou ao garçom, baixinho:
- É, pode trazer três cappuccini.
- E traz também - determinou um dos outros dois - três pedaços de... Não, não, eu quero torta. É, três fatias de torta. Qualquer uma tá bom.
Decidiram, também, quem começaria a falar. Tendo um amigo de cada lado, o homem que chegara adiantado levou novo susto quando recebeu dos dois, quase ao mesmo tempo, aquela pancadinha camarada perto do ombro, comum no cumprimento masculino. O que o surpreendeu mesmo foi a batida não tão camarada e, além disso, os dois, no ato do gesto, atropelaram-se na fala pedindo ao outro que falasse:
- Diz aí, meu chapa!
Isso soou como um eco desarmonioso e super desagradável aos ouvidos do pobre homem, os quais se sentiram imprensados, esmagados verbalmente.
Pareceu-lhe, também, ao homem que já tinha guardado o papel dentro do livro, que não era a primeira vez, depois de muito tempo, que aqueles dois se encontravam. Tinham uma certa semelhança nos gestos e na fala, e mesmo uma sincronia, que impressionava.
E se queriam que ele dissesse, mais que isso, também queriam dizer. Não ouviram uma resposta do interlocutor em comum e já se puseram a falar de si. Primeiro o da esquerda, que, apontando para o lado da rua, queria mostrar algo de que se orgulhava:
- Tão vendo ali - dirigindo-se aos outros dois - tão vendo aquela máquina? Aquela potência? - dizia isso de um moto alta e vermelha estacionada em frente ao café. E continuou: - Pois é, comprei ela...
Mas o outro, da direita, meteu-se no meio e foi falando, exultante:
- Isso é porque tu não sentiu a força da minha Hilux 2010! Além de tudo, é linda - e estendia o braço em direção a um carro com carroceria e prateado, também parado em frente ao café.
Houve uma rápida discussão (no bom sentido) entre os dois a respeito de seus respectivos veículos, durante a qual chegaram os pedidos. Um dos dois, com a boca meio cheia de torta, parou a discussão inacabada e voltou-se repentinamente para o outro que, até aquele instante, só havia pensado o quão estranho estavam aqueles dois; não estava reconhecendo-os. Desde a última vez que tinham se visto, no último ano do Ensino Médio, aqueles dois haviam mudado muito. Dessa vez, porém, falou, quando foi requisitado:
- E tu, não fala nada. Como é que está a vida? Tem esposa? Tem filhos? Tu não coloca nada lá na Internet pra gente ver, macho!
De fato, o homem não punha quase nada na sua página individual - pouquíssimas fotos, nenhum vídeo e algumas frases um tanto subjetivas e herméticas. Por outro lado, soube de quase toda a vida atual dos antigos amigos só clicando aqui e ali.
Pensando em brincar um pouco com os dois, engoliu o pedaço de torta e falou:
- É que eu sou um pouco reservado, vocês sabem. Quanto à esposa, casei uma vez. Passamos um bom tempo juntos, mas nos separamos; foi quando eu estava com ela que tive o primeiro filho. Depois quis ter o segundo e ela já não me apoiava mais. Então, vocês sabem...
- É, eu sei. Mulher é foda mesmo. Quando empaca numa coisa, não tira mais da cabeça.
- E tu tá cuidando sozinho desse filho? - perguntou o outro. Tá trabalhando em quê?
- Pois é. Como eu queria, tive ainda outro filho. Trabalho mesmo foi fazê-los...
- Que nada, cara! - atalhou o outro - O mais fácil é na hora de fazer. Depois é que você tem que aguentar o tranco, a barra pesada.
- Mas pra mim o difícil mesmo foi fazer. Suei pra caramba...
- Quem é que não sua nessas horas? - disse o mesmo, gracejando, que interrompia já pela terceira vez.
- Suei muito. E a gestação deles não demorou só nove meses. Pra nascer, pra vir realmente ao mundo, o primeiro custou uns dois anos.
- Como assim? Tu fala e parece que foi tu que engravidou!
- E esse dois anos! Que história é essa!? - perguntou o mais afobado.
Estava se divertindo com a confusão dos dois. Sem responder a nenhuma pergunta ainda, continuou:
- O meu trabalho eu já fiz. Agora é só esperar o retorno financeiro, se tiver, desses pestinhas que me ocuparam tanto tempo. Ganho dinheiro às custas da minha prole.
- O quê!? - ecoaram novamente os dois.
Um prosseguiu no espanto:
- Tu bota os teus filhos pra trabalharem pra ti? - E não hesitou em dizer: - Mas que porra é essa!? Que tipo de pai é tu?
Parou, enfim, com a brincadeira, com a irreverência e percebeu que aqueles dois nunca ouviram falar no seu nome e, se não fosse aquele dia, jamais saberiam o que ele fazia. Apanhou o livro que estava sobre as suas pernas e o mostrou aos amigos:
- Este é meu filho mais velho.
Surpreenderam-se os dois; ambos tiveram um rosto indescritível. Ficaram um tempo calados, olharam-se e, finalmente, e de novo, agora sem muita surpresa por parte do outro, parabenizaram o amigo no mesmo instante; um "parabéns" bem insosso e irônico:
- Ah, parabéns. Eu não sabia que escrevia, que tu era escritor.
- Pois é.
E entre gargalhadas por se perceberem vítimas de uma pegadinha, um deles perguntou ao outro, que também tremia de rir por ser o armador da brincadeira:
- Eu vou querer esse aí. Quanto é que tu quer nele? Dez reais tá bom? - e foi tirando a carteira.
"Que miserável" - pensou o autor do livro - "Dez reais!..." Mas falou:
- Não, não! Esse aqui eu trouxe pra dá de presente mesmo.
Tirou o papel de dentro do livro e disse
- Toma, pega. Eu não quero nada, esse é presente. Depois te dou um também - dirigindo-se ao ou outro.
Terminaram o lanche e, na despedida, ficaram de se ver de novo, queriam reestabelecer a amizade.
O primeiro a chegar também foi o último a sair. Viu a moto e o carro dispararem rua a fora e ficou esperando o ônibus. Chegou ao apartamento, pegou a folha de papel do bolso, sentou-se à escrivaninha e pôs-se a escrever para terminar o que começara.
Terminei de escrever, está pronto, mas não mostro este conto àqueles dois, nem a ninguém, nem se virarem os meus leitores mais assíduos e fanáticos. E, pensando bem, seria uma ótima estratégia para as minhas publicaçoes póstumas: um texto ainda não lido. Mas deixa pra lá, porque certamente não seria este.
